Claudio de Moura Castro - Família, escola, empresa: o tripé da produtividade

Foto: Danilo Viegas

Estas são algumas das conclusões de Claudio de Moura Castro, considerado no Brasil e no exterior um dos mais destacados especialistas de educação na atualidade. Ocupou cargos de assessoramento e direção na Organização Internacional do Trabalho (OIT), no Banco Mundial, no Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), e na Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), vinculada ao Ministério da Educação.


Carioca de nascimento, mudou-se para Minas Gerais em 1950, quando tinha 10 anos de idade.Formado em economia na Universidade Federal de Minas Gerais, tornou-se mestre e doutor, respectivamente pela Yale University e Vanderbilt University. Lecionou em diversas universidades brasileiras e, também, nas universidades de Chicago, de Genebra e da Borgonha, em Dijon, no nordeste francês. Desde 1996, tem uma coluna quinzenal na revista Veja, escrevendo sobre educação.


Como se pode aumentar a produtividade brasileira, que é sabidamente muito baixa?


São a escola e a empresa que promovem as grandes mudanças. Sem a educação não se adquire a ferramenta essencial para aprender direito a profissão. Os conhecimentos hoje estão acumulados nos livros. Aí é que o carro pega. Com a complexidade do sistema produtivo não se consegue aprender assuntos mais técnicos sem o total domínio da escrita e da leitura. Igualmente, os jovens devem ser atraídos para dentro das fábricas, das empresas, pois lá também se aprende, e muito. Aí está o crime que essa Lei do Jovem Aprendiz comete. O grau das exigências legais que recaem sobre quem recebe o aprendiz faz com que seja mau negócio recebê-lo.


Se a fábrica tem uma crise, como a que ocorreu no governo Dilma, provocando uma queda de 30% na demanda, o empregador fica na contingência de ter de mandar gente embora. Mas, tem que dispensar o cara que produz. O aprendiz, que nada produz, fica na empresa porque ele tem um contrato que não pode ser quebrado. Esse jovem trabalha a metade do tempo. No emprego, ele não pode pegar uma caixa ou subir em uma escadinha. Sendo assim, sua contratação é um péssimo negócio para a empresa.


A empresa só tem aprendiz porque é obrigada, mais do que obrigada. Vigora no Brasil um sistema cuja equação está desequilibrada. Na Alemanha, mais da metade dos meninos de 16 para 17 anos, em vez de irem para o ensino médio, vão para o sistema de aprendizagem, começando com um salário bem inferior ao dos adultos. Podem fazer tudo o que esteja dentro de uma faixa de segurança razoável. Além disso, o jovem pode até mesmo ter que varrer o chão. Mas, a empresa tem que lhe ensinar o ofício, o que ficará demonstrado por uma prova rígida que faz ao fim do programa. A equação bate: beneficio de cá, benefício de lá. É bom para a empresa, que paga apenas dois terços do salário. Sendo assim, é interessante receber um aprendiz. E é bom para o aprendiz, que aprende um ofício e adquire experiência de trabalho ‘de verdade’.


Fala-se muito na necessidade de mais escolas técnicas, mas sequer estruturamos um sistema adequado para o jovem aprendiz.


Exatamente. E a escola técnica é uma escola que está no limbo. Não sabe se é uma escola acadêmica, se é uma escola para preparar para a universidade, ou se é uma escola profissional. Isso tudo agravado pelo fato de que matamos a aprendizagem na empresa, como consequência de uma legislação cretina. O jovem aprendiz tem mais estabilidade do que o empregado que faz o produto vendido. Ele é ‘imandável’ e desmotivado.


Como assim?


Vou falar de uma pesquisa que conduzi no Paraná. Uma fábrica de móveis recebe 15 aprendizes de marcenaria. Isso porque é obrigada. O que ela faz? Manda os 15 para o escritório, para o almoxarifado, para a expedição. Então acabam ficando lá dois ou três anos, sem nunca ter ido à oficina de marcenaria. Isso deixa o jovem ‘pê’ da vida, porque queria ser marceneiro, e, no final da história, saiu da aprendizagem em marcenaria sem pregar um prego. A empresa não tem o que fazer com esse rapaz no escritório. Os empregados, que se matam de trabalhar, ganham o mesmo salário do aprendiz. Eles têm ódio dos aprendizes. E os aprendizes têm ódio dos empregados, porque os empregados têm ódio deles. E a empresa acha tudo aquilo uma m..., mas é obrigada a receber.


O aprendiz não pode lidar com as máquinas?


Não pode. Só pode entrar em locais em que as máquinas estiverem lacradas pelo Ministério do Trabalho. Coloca-se um selo para garantir que a máquina não funciona. Para o jovem chegar perto dela, tem de estar permanentemente desativada. Que industrial vai fazer isso? Como produzir com máquinas lacradas?


Isso a pretexto de periculosidade?


Periculosidade. Só que um aprendiz equivalente, na mesma indústria na Europa, trabalha e não tem acidente. Periculosidade é o jovem desempregado na rua, aprontando. Mas não pode, em uma fábrica decente brasileira, que exibe boas condições de trabalho e ambiente.


Estamos com a pauta invertida, ao pedir mais escola técnica, enquanto existe um inadequado programa de jovem aprendiz?


Não. Precisamos também de mais escolas técnicas, certamente. Mas, as escolas técnicas necessitam ser repensadas, porque elas são quase que um puxadinho de uma escola acadêmica tradicional. Requer-se o mestrado dos professores das escolas técnicas federais. Falemos de solda. Para ser soldador, precisa passar 500 horas queimando eletrodo, e mais umas 200 aprendendo a ser instrutor de solda. São 700 horas. Como é que se enfia 700 horas em um currículo de escola técnica, que já está congestionado com o ensino médio? Então, quem sabe não pode ensinar, e quem ensina não pode saber, porque não cabe no currículo a experiência prática necessária. Como é que se forma um ferramenteiro? Se alguém resolver fazer um curso de ferramentaria, no nível técnico, não vai conseguir. Portanto, as escolas técnicas acabam por ter uma alma cujo ethos é acadêmico. Pela tradição, o professor da área acadêmica tem mais diplomas, mais status, caminhando pelos corredores de peito estufado. Se existe um instrutor, é aquele pobrezinho, de aventalzinho azul e meio desenxabido. A escola está dizendo para os alunos: olha, esse negócio de trabalhar na oficina não é coisa boa.


E na da área gastronomia, como pode se dar a formação técnica?